24 de outubro de 2011

Aprofundamento [3]: Lucas errou ao citar um recenseamento mundial?

"E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse (Este primeiro alistamento foi feito sendo Quirino presidente da Síria)."
[Lc 2:1-2]

Segundo a entrevista que o padre anglicano Jerome Murphy O'Connor concedeu para o programa "A Vida Desconhecida de Jesus", do canal Discovery Channel, a data apresentada no evangelho de Lucas para o recenseamento não bate com o real recenseamento realizado por Quirino e a viagem realizada por José e Maria seria inviável. Será que Lucas cometeu um erro no relato?




Não, Lucas não cometeu um deslize. A falta de qualquer documento histórico além da Bíblia acerca do recenseamento citado por Lucas fez com que vários críticos acreditassem que não houve o censo ou que a data estava errada. Entretanto, conhecimentos recentes reverteram essa tendência, e agora é amplamente admitido que houve de fato um recenseamento anterior, como Lucas registra. Isso foi declarado com base em vários fatores.
  • Em primeiro lugarcomo o povo de uma terra subjugada era compelido a jurar lealdade ao imperador, não era incomum que este requeresse um recenseamento em todo o império, como expressão dessa lealdade, como um meio de alistar os homens para o serviço militar ou, corno foi provavelmente nesse caso, como preparação para decretar impostos. Devido às relações de tensão que havia entre Herodes e Augusto, nos últimos anos do governo de Herodes, como o historiador Josefo relata, é compreensível que Augusto começasse a tratar o domínio de Herodes como uma terra sujeita, e conseqüentemente impusesse tal recenseamento para manter controle sobre Herodes e sobre o povo.
  • Segundo, alistamentos periódicos desse tipo aconteciam de forma regular a cada 14 anos. De acordo com os próprios documentos que registraram esses alistamentos (ver W. M. Ramsay, Was Christ Born in Bethlehem? [Cristo Nasceu em Belém?], 1898), houve de fato um recenseamento em cerca de 8 ou 7 a.C. Por causa desse costume periódico de recenseamentos, uma ação assim naturalmente seria considerada como decorrente da política geral de Augusto, muito embora um censo local pudesse ter sido instigado pelo governante local. Portanto, Lucas reconhece que o alistamento originou-se do decreto de Augusto.
  • Terceiro, um recenseamento era um projeto de grande amplitude, que levava provavelmente vários anos para completar-se. Tal alistamento com o propósito de estabelecer impostos tinha começado na Gália entre os anos 10 ou 9 a.C, e levou cerca de 40 anos para terminar. É bem provável que o decreto que deu início ao recenseamento, em 8 ou 7 a.C, não tenha de fato começado na Palestina, senão alguns anos depois. Problemas de organização e preparo podem ter retardado a sua realização até o ano 5 a.C, ou até mesmo para mais tarde.
  • Quarto, não era também um requisito fora do normal exigir que as pessoas fossem até o lugar de seu nascimento ou ao lugar onde tivessem alguma propriedade. Um decreto de C. Vibius Mazimus no ano 104 a.D. requereu que todos os que estavam fora de sua cidade natal retornassem para lá com o propósito de um alistamento.

Para os judeus, viagens assim não eram estranhas, já que eles estavam acostumados a ir todo ano a Jerusalém. Simplesmente não há por que suspeitar da afirmação de Lucas a respeito do recenseamento no tempo do nascimento de Jesus. Seu relato enquadra-se no padrão dos alistamentos da época, e a data de sua realização não é descabida. Além disso, esse pode ter sido apenas um alistamento local, feito em decorrência da política geral de Augusto.

Lucas simplesmente nos fornece um registro histórico confiável de um acontecimento que, de outra forma, não teria sido registrado. Já que o Dr. Lucas provou por si mesmo ser um historiador de confiança em outras questões (ver Sir William Ramsey, St. Paul the Traveler and Roman Citizen [São Paulo, o Viajante e o Cidadão Romano], 1896), não há por que duvidar dele.


Fonte: "Manual popular de Dúvidas,
Enigmas e 'Contradições' da Bíblia"
Norman Geisler e Thomas Howe

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